segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O Labirinto dos Espíritos, de Carlos Ruiz Zafón

Sinopse:

Não perca o final da saga iniciada com A Sombra do Vento.

Na Barcelona dos fins dos anos de 1950, Daniel Sempere já não é aquele menino que descobriu um livro que havia de lhe mudar a vida entre os corredores do Cemitério dos Livros Esquecidos. O mistério da morte da mãe, Isabella, abriu-lhe um abismo na alma, do qual a mulher Bea e o fiel amigo Fermín tentam salvá-lo.

Quando Daniel acredita que está a um passo de resolver o enigma, uma conjura muito mais profunda e obscura do que jamais poderia imaginar planta a sua rede das entranhas do Regime. É quando aparece Alicia Gris, uma alma nascida das sombras da guerra, para os conduzir ao coração das trevas e revelar a história secreta da família.... embora a um preço terrível. 

O Labirinto dos Espíritos é uma história eletrizante de paixões, intrigas e aventuras. Através das suas páginas chegaremos ao grande final da saga iniciada com A Sombra do Vento, que alcança aqui toda a sua intensidade, desenhando uma grande homenagem ao mundo dos livros, à arte de narrar histórias e ao vínculo mágico entre a literatura e a vida. (in Goodreads)




Opinião:

Depois de alguns anos à espera deste livro, assim que saiu agarrei-me a ele e só o larguei quando terminou. Não esperava outra coisa quando o comecei, sabia que ia ficar sedenta das palavras magicamente elaboradas do autor e confesso que cheguei a atrasar a leitura para poder saborear mais um pouco. 

É o sexto livro que leio do autor e é sempre como se fosse a primeira vez; é sempre algo mágico e rico. E é uma experiência que me delicia. 

Sendo A Sombra do Vento, O Jogo do Anjo e O Prisioneiro do Céu livros que me marcaram e que me deixaram em suspenso, esperava muito deste volume. E não fiquei desiludida. 

Este livro pega na história onde O Prisioneiro do Céu terminou. O mistério continua e muito há para descobrir. Daniel é pai de um menino, Júlian, Fermín continua com as suas atividades e mistérios, mas algo muito mais negro e perigoso entra em cena quando o ministro e ex-diretor da prisão de Montjuic desaparece. Rodeado de um mistério que envolve algo muito grande e perigoso, entra em cena Alicia Gris, uma jovem de profissão um tanto estranha: trabalha para uma espécie de organização-fantasma que ajuda a polícia a resolver casos muito difíceis, entre outros trabalhos arriscados. 

Numa trama a que Zafón nos foi habituando, todas as personagens têm uma ligação, todos os momentos são parte de um puzzle gigante e bem construído, onde cada momento encaixa na perfeição. 

Senti novamente uma grande afinidade com as personagens, todas elas. Uma vez que a história vai sendo contada através de várias personagens e dos seus olhares (apesar de só uma parte ser na primeira pessoa), é possível observar como a teia está interligada e tecida. As pontas, que parecem mais desfeitas do que nunca, vão se aproximando, aproximando...para revelar algo que é acaba por surpreender, e que já vou referir mais à frente. 

Em relação às personagens, devo referir que todas, sem exceção, estão soberbas. Desde as maiores até às menores, todas elas fazem o seu papel na perfeição, com propósitos bem definidos e distintos. Gostei de todas elas e da forma como apareceram na história e deixaram a sua marca. Daniel continua a ser aquele jovem amigável e simpático, se bem que muito mais complexo e que acaba por se mostrar bastante obscuro a dado momento. Fermín continua a ser um mistério e a personagem mais carismática da saga. Sempre pronto a ajudar e sempre com algo a dizer. Beatriz também está muito bem...mas claro, uma das personagens deste livro, aquela que tem mais destaque, é Alicia. Complexa, obscura e sedenta de conhecimento sobre tudo o que a rodeia, ela é a agente secreta perfeita. Com a ajuda do agente da polícia Vargas, fazem uma excelente dupla a resolver o mistério do desaparecimento de Valls, personagem que se vai tornando mais horripilante à medida que a história avança. 

Mas há muitas mais personagens...personagens que regressam, personagens que aparecem só por momentos, personagens que aparecem apenas em conversas entre outras ou por cartas, mas que são o eixo central de toda a história. Todas elas são únicas e especiais e eu gostei de todas. 

Quanto à narrativa, há tanto para dizer...tanto para contar e para comentar... mas não quero adiantar-me muito pois o mais certo seria começar a contar spoilers e este é aquele tipo de história que merece que se vá sendo surpreendido a todo o instante, sem spoilers. Fiz um esforço por não ir à frente e confirmar algumas das minhas teorias, mas lá consegui. Contudo, posso dizer aquilo que senti. 

A história está perfeita. Além do facto de tudo encaixar, a trama está riquíssima. É poderosa, complexa e surpreendente simples. O que parece tão complicado a certa altura e em livros anteriores, acaba por ser algo tão simples que surpreende por si só. Todo o passado acaba por vir à tona e muitos mistérios dos livros anteriores são trazidos a lume, se bem que muito fique nas entrelinhas, o que também me agradou bastante, uma vez que fixa a ideia de mistério que sempre me prendeu à obra. 

Poder, política, corrupção, um enredo sórdido e triste, que no seu âmago leva a uma pequena história, a uma história simples, de amor, amizade e lealdade. No meio de uma trama gigante e rocambolesca, narrada com mestria, está o amor, simples e despido de complexos. É como o desfolhar de uma rosa. As pétalas vão saindo, até mostrar o centro, o motivo de toda a história, de todos os mistérios desvendados e que ficam por desvendar. Porque, afinal, o que move tudo e todos é o amor. O amor em todos os sentidos, seja de que forma for, seja por quem ou pelo que for. Por uma pessoa, pelo poder, pelo prestigio. 

E não é só a história em si que extraordinária e perfeita. É também a forma como é contada. O jogo de palavras, a construção das frases, dos parágrafos... há um motivo para cada palavra estar onde está. O constrói cada frase com o propósito de criar algo único e de conduzir o leitor pelo labirinto. Assim, não se é apenas conduzido pelas personagens e pela história, como pela própria linguagem. A linguagem é ela própria personagem, por assim dizer. Aliás, é como se ela fosse a grande narradora. Como se a história fosse narrada pelas próprias palavras, como se elas se escrevessem a si mesmas e criassem elas mesmas a história. 

É uma história sobre histórias, sobre livros, sobre a arte da escrita e da leitura, sobre o que estas duas artes nos dão e nos tiram. É uma lição de como contar um história e de como apreciá-la e vivê-la. É uma história comovente, grandiosa e inesquecível, que deixa algo em nós e que também fica com algo nosso. Aliás, isso mesmo é descrito a dado momento, o que promove a forma como a escrita faz parte da própria história. 

Zafón volta a surpreender, volta a dar-nos uma maravilhosa história de amor e luta. Luta pela Vida, luta pela justiça, por algo melhor. Por mais violência e descrições cruas e negras que haja, por mais nojeira e asco que apareça, está lá o amor e amizade para as vencer. 

E, mais uma vez, leva-nos por uma brilhante visita a Barcelona. 

Assim, recomendo vivamente a todos os leitores que gostam de histórias poderosas, complexas, densas, misteriosas e belas. É, sem dúvida, uma viagem única e que nos arrebata. Todos devem ler estas histórias, pois são preciosas e mágicas.

NOTA (0 a 10): 10